Viana Visão
Eu não tenho medo da
morte, tenho medo de ser improdutivo. É estranho admitir isso em voz alta como
se confessasse a uma sombra que me acompanha desde cedo. A morte, silenciosa e
inevitável, não me assusta. Ela é apenas uma fronteira distante, uma porta que
um dia se abrirá por si mesma. Mas a improdutividade, essa sim me espreita.
Essa se senta ao meu lado como um velho conhecido e sussurra que o tempo passa
que a vida se vai e que nada, absolutamente nada, garante que deixarei alguma
marca. Vivo isso, numa espécie de vigilância íntima.
Cada dia amanhece como
uma folha em branco que exige ser preenchida com algo maior do que eu, um
gesto, uma frase, um avanço, ainda que pequeno na longa construção de mim
mesmo. Não é ambição; é sobrevivência, a improdutividade machuca mais do que o
fracasso, porque ela não deixa rastros, não deixa história, não deixa memória.
É como morrer aos poucos enquanto o mundo continua respirando ao redor.
Tenho medo de viver
encostado à vida, como um espectador que chegou cedo demais ao teatro,
observando a poeira dançar no espaço onde o espetáculo ainda não começou. Há
quem tema o fim, talvez eu tenha herdado essa inquietação do tempo, esse
impulso de significar. Há algo dentro de mim que se contorce, como se a
inutilidade fosse uma forma lenta de morte!
Reflexões
Ser produtivo, no meu
íntimo, não é sobre números, metas ou tempo, é sobre presença. Sobre deixar que
minha consciência toque as outras, mesmo que de forma breve. O debate não é
sobre morrer, mas sobre o valor da vida. Sobre o direito de existir com
sentido, com escolha, com autonomia. Não temo a morte; temo a possibilidade de
ser prisioneiro de um corpo ou de um destino que já não me permite criar,
transformar, significar.
A dignidade, para mim,
sempre morou na liberdade de construir o próprio caminho. E enquanto escrevo
estas linhas, percebo que a produtividade que busco não está no acúmulo, mas na
profundidade. Em estar desperto para as coisas pequenas o toque da luz na
manhã, o som do mundo respirando, o impacto silencioso de uma palavra certa
dita na hora certa.
Eu não temo a morte.
Temia passar pela vida como se não tivesse vivido. E é essa consciência essa
chama que me empurra diariamente para frente, mesmo quando tudo parece cinza. A
morte é certa, mas a vida, essa eu ainda escrevo, uma página por dia! Autor: Viana Visão